Cor #6: Cor e semiótica

A semiótica é o estudo dos signos, é a ciência das linguagens. Ou seja, todo e qualquer elemento que comunique simbolizando algo (conceptual, físico, objeto ou pessoa). Tem como objetivo estudar os sistemas semióticos e de comunicação, bem como os processos envolvidos na produção e interpretação dos signos.

O signo, segundo Peirce, é tudo o que se relaciona a uma segunda coisa, seu objeto,
com uma qualidade, trazendo assim uma terceira coisa, seu interpretante, para uma relação com este mesmo objeto. (PEIRCE, 2005 p.46)

Considerado isoladamente, signo algum tem significação. Toda a significação do signo nasce do contexto, quer entendamos por isso um contexto de situação ou um contexto explícito, o que vem a dar no mesmo. Um contexto situacional pode sempre ser tornado explicito (HJELMSLEV, 1975, p.50).

Aplicando essa ideia à cor, se decidirmos que a significação específica de uma cor é tão arbitrária quanto as letras que compõe o seu nome, começaremos a perceber que todos os valores que as cores têm são meramente os valores que lhes atribuímos.

Um sinal vermelho no trânsito significa “PARE”, já que foi isso que concordamos que significaria. É um entendimento muito diferente das teorias dos terapeutas e psicólogos da cor, que acreditam que as cores carregam significados intrínsecos e universais.

Considerando a cor uma linguagem que tem significado, é natural valer-se da semiótica para entender a interpretação resultante da interação que se dá entre todos estes elementos.

A semiótica como disciplina que está na base de todos os sistemas cognitivos biológicos, humanos e não humanos, engloba e promove um marco epistemológico adequado para todas as demais perspectivas.

Se considerarmos a cor como signo, estamos incluindo todos os aspectos. A
cor pode funcionar como signo para um fenômeno físico, para um mecanismo fisiológico ou para uma associação psicológica (Brandão, 2003, p. 105).

Qual o significado das cores amarelo e preto nesta imagem?

Conforme Santaella (2006, p.40), Pierce traz um modelo fenomenológico: a primeiridade, a secundidade e a terceridade.

A primeiridade é sensação, o sentimento como qualidade que dá o sabor, tom, matiz para a nossa consciência imediata. É a primeira impressão, não analisável, frágil.

O fato de existir, já é a secundidade.

A secundidade então é a ação ao fato de existir, a reação e a consciência. É sem intencionalidade, razão, recebe a qualidade e toma consciência dos pensamentos.

A partir do momento em que estes pensamentos tomam significado, já é terceiridade.

Portanto, a terceiridade é que atribui um determinado sentido, valor. Nesta etapa já representamos e interpretamos o mundo.

Segundo Epstein (2001, p.49), Peirce traz mais uma tricotomia podendo o signo ser
denominado de ícone, índice ou símbolo.

O ícone é o signo que indica uma qualidade ou propriedade de um objeto em si, comunicam de forma imediata por serem percebidos de imediato. Exemplos de ícones são os quadros, desenhos, metáforas, comparações, figuras lógicas e poéticas, etc.

Exemplo de ícone

Os índices são os signos onde a relação signo-objeto é uma relação direta, causal e real com seu objeto, é adquirido pela herança cultural ou experiências. Exemplos de índices são: uma flecha, um ponteiro de relógio, a fumaça como indicadora de presença de fogo, nomes próprios, etc.

Exemplo de índice

O símbolo é um signo arbitrário cuja ligação com o objeto é definida por uma lei geral, abstrata. Trazem em si caracteres icônicos e indicais. Todo o símbolo é ou uma imagem da ideia significada, ou uma reminiscência de alguma ocorrência individual, pessoa ou coisa, ligada ao seu significado, ou uma metáfora (PEIRCE, 2005 p.40).

Os símbolos mais comuns que usamos são as palavras.

Os signos visuais muitas vezes incorporam atributos de mais de uma categoria de signo. Uma placa de banheiro feminino mostrando uma mulher de vestido é um ícone (retratando a figura humana), mas é também um índice (indicando a localização de um banheiro).

A cor como signo

Para que a cor seja um signo é necessário que, após ter a informação cromática, ela seja recebida pela nossa visão, conscientizada da sensação recebida e interpretada na sua materialidade (GUIMARÃES, 2000 p.19).

A cor transmite sensações para cada indivíduo que a observa, que a sente. A percepção visual depende de fatores como o do aparelho óptico, do cérebro, e segundo Heller (2014, p.17), terá uma linguagem diferente de acordo suas vivências desde a infância, podendo ter significados positivos ou negativos.

Você vê sangue?
Se aqui você vê tinta azul, porque a anterior não poderia ser tinta vermelha?

Farina (2011, p.85) traz a cor como uma realidade sensorial. É comum classificá-las em frias e quentes, assim como há cores que dão sensação de proximidade e outras de distância. Em geral, todo elemento de aproximação contribui para abrir as portas de uma boa comunicação.

Há vários estudos para a análise das preferências por determinadas cores pelo
indivíduo, levando em consideração os aspectos sociológicos, psicológicos e fisiológicos.

Há necessidade, em primeiro lugar, de se tentar sanar um grande inconveniente: as reações que uma mesma cor pode ocasionar e que derivam, às vezes, da utilização que dela se pretende fazer. Se um indivíduo pensa, consciente ou inconscientemente, em uma cor relacionada a determinado uso que irá fazer dela, é evidente que sua reação não é diante da cor em si, mas da cor em função de algo. (FARINA, 2011, p.86)

Sendo assim podemos dizer que acertar a cor para uma linha de usuários exigentes, é uma tarefa mais complicada do que se podia imaginar. O designer não pode somente pensar na cor como sua origem, mas também no que ela pode significar para seu público alvo. Para utilizar cores que transmitam as sensações pretendidas, é necessário não só o estudo das cores, mas também dos costumes sociais que os indivíduos estão inseridos.

Conforme Freitas (2011, p.33), a função do design de superfície é comunicar-se por
meio dos materiais, das texturas e das cores nos objetos de uso, sendo possível estimular os sentidos humanos e provocar sensações. Utilizar-se do uso emocional das cores.

Uma vez estabelecidas, as significações arbitrárias das cores persistem. O vermelho “significa” simultaneamente tudo o que já lhe foi atribuído, seja por planejadores urbanos, místicos, designers, grupos religiosos, etc. Às vezes, sabemos qual valor está sendo invocado por causa do contexto.

Ninguém interpreta um carro vermelho como um sinal de PARE. Na verdade, a lataria vermelha tende a sugerir velocidade. Se escrevo sobre um céu azul, você pode imaginar uma cena feliz. Mas se eu digo “ficou azul de raiva”, ocorrerá outra reação.

As pessoas muitas vezes escolhem cores por causa de associações pessoais, ao passo que ilustradores, designers e arquitetos, geralmente não. De qualquer forma, aquele edifício é cinza, prateado ou rosa por algum motivo; as roupas daquela mulher são pretas por algum motivo.

Descubra quais são esses porquês e quais as combinações de signinos estão envolvidas e você se tornará mais refinado em seus usos da cor.

Referências

Este texto faz parte da nossa Série Sobre Cores. Clique no link e veja todos os artigos.

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