Tipografia básica #9 – Família de tipos

Já trabalho há bastante tempo com diagramação, e antes de assumir a posição de diagramador me parecia fácil e simples posicionar os objetos na página, escrever um texto, escolher um tipo de letra, arranjar uma boa foto. Creio que este seja o pensamento de muita gente, visto a quantidade de clientes “especialistas” em design e diagramação com que nos deparamos diariamente.

Entretanto, produzir o efeito desejado em uma página exige muito mais do que o simples arranjar de objetos, alinhamentos e cores. Existem várias técnicas e estruturas que ajudam o designer a desenvolver projetos coerentes e eficazes, controlando e harmonizando os vários elementos tipográficos que eles contêm.

O uso eficaz dos tipos requer uma combinação de entendimento da natureza das faces tipográficas e do controle de seu uso, para que eles expressem as ideias que você quer. Quando essa combinação é aplicada, o resultado é uma tipografia cuidadosa e precisamente composta que reforça o significado do texto.

Família de tipos ©Shutterstock
Família de tipos ©Shutterstock

No decorrer da série Tipografia básica, você aprendeu diversos conceitos e teorias que te ajudaram a compreender como os tipos são formados. A partir deste ponto, você vai aprender como colocar este conhecimento em prática, e atingir resultados antes impensáveis.

Uma diagramação bem planejada permite a transmissão controlada de informações. Queira você o trabalho seja direto, estilizado, histórico, anárquico ou moderno, as noções básicas de composição com tipos o ajudarão a atingir seu objetivo.

Famílias de tipos

O primeiro passo para composições eficientes é entender como as famílias de tipos são formadas, isso irá te ajudar a escolher o melhor estilo para resgatar e transmitir emoções nos seus trabalhos.

Uma família de tipos incorpora todas as variações de uma face, incluindo a gama inteira de pesos, larguras e itálicos. Elas são ferramentas de design úteis, porque dão ao designer opções que são, ao mesmo tempo, diversificadas e coerentes entre si.

A família compreende o conjunto de fontes tipográficas que compartilham traços de desenhos comuns, sendo, porém, apresentadas com variações, como espessura (fino, normal ou negrito), light (claro), inclinação (redondo ou itálico), regular, entre outros. Por exemplo, Times New Roman é um tipo de letra e Times New Roman Negrito, uma fonte pertencente à família tipográfica Times New Roman.

A variedade oferecida por famílias de tipos é adequada para tudo, desde notas de rodapé a cartazes, de corpo de texto a manchetes (títulos), dispensando o uso de tipos de famílias diferentes.

Uma pequena parte dos membros da família Gotham
Uma pequena parte dos membros da família Gotham

A família de tipos Gotham é uma das que possui uma quantidade considerável de variações, classificar estas variações nem sempre é tarefa fácil. Diversos autores desenvolveram formas diferentes de classificar os membros de uma família de tipos.

Observando a imagem acima, de cima para baixo, temos as fontes Gotham Light, Gotham Light Italic, Gotham Medium, Gotham Medium Italic, Gotham Bold, Gotham Bold Italic, Gotham Black, Gotham Black Italic, Gotham Ultra e Gotham Ultra Italic.

Este é um conjunto bem limitado das variações da família Gotham, há ainda as variações Narrow, Condensed, Monoespassed entre outros. À medida que as variações vão surgindo, classificar e nomear estas fontes passa a ser cada vez mais complicado.

Uma solução para a confusão na nomenclatura de famílias pode ser organizar os pesos em uma matriz. Aqui temos quatro estilos de faces: Uma sem serifa, uma semi sem serifa, uma semisserifada e uma serifada.

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Tipografia Básica – Gavin Ambrose e Paul Harris – Página 63

A sem serifa e a semi sem serifa, que são as mais úteis no corpo de texto, têm uma ampla variedade de pesos. A peculiar semiserifada e a serifada, que são as mais adequadas para títulos, têm uma grama reduzida de variações.

Adrian Frutiger é figura de destaque no panteão dos tipógrafos devido à grade de classificação que desenvolveu para mostrar as relações entre os diferentes pesos e larguras de sua face Univers.

Tipografia Básica - Gavin Ambrose e Paul Harris - Página 64
Tipografia Básica – Gavin Ambrose e Paul Harris – Página 64

Uma das rezões para o sucesso da Univers, criada em 1951, foi o sistema de numeração que Frutiger desenvolveu para mostrar as relações de largura e peso entre as 21 variações originais. Esse sistema de numeração é conhecido como tabela de Frutiger. O primeiro número de cada par está relacionado ao peso – três é o mais leve e oito o mais pesado.

O segundo número em cada par refere-se à largura – três é a mais expandida e nove a mais condensada. Além disso, os números ímpares indicam variações romanas e os pares, itálicas. Você já deve ter se deparado com outras famílias tipográficas que contém dezenas de variações. É o caso da famosa Helvética Neue, que conta com 51 variações.

Hierarquia e Harmonia tipográfica

Muitos designers usam apenas duas variantes de uma mesma família tipográfica, isso permite criar clareza e sensação de uniformidade, uma vez que é suficiente para estabelecer uma hierarquia tipográfica sem elaborações desnecessárias.

Você está vivenciando esta experiência ao ler as linhas deste artigo. Pode notar que os títulos de cada seção deste post possuem a mesma fonte, apenas com um tamanho e peso diferentes. Além do estilo, o tamanho é uma excelente alternativa para determinar esta hierarquia, assim você é capaz de identificar instantaneamente onde termina e começa uma nova seção.

É necessário tomar cuidado ao escolher as variantes que comporão o seu texto. Usar fontes com pesos muito semelhantes pode fazer com que o texto pareça incômodo, ou que a informação que você queira destacar passe despercebida.

Quando duas variações muito próximas são utilizadas o resultado é ineficiente
Quando duas variações muito próximas são utilizadas o resultado é ineficiente

Algo diferente acontece quando uma fonte muito grossa é usada para dar destaque em um texto onde o corpo seja extremamente fino. Se o objetivo é transmitir delicadeza e harmonia, este contraste pode por tudo a perder.

Uma variação muito pesada no título e uma muito leve no corpo
Uma variação muito pesada no título e uma muito leve no corpo

Usando tipos diferentes

Embora seja perfeitamente possível realizar um projeto usando apenas uma família de tipos e suas variações, o uso de duas ou mais famílias não é incomum. Isso também ajuda a criar hierarquia e facilitar a navegação em uma publicação.

O uso de tipos de famílias diferentes reforça a hierarquia em uma composição
O uso de tipos de famílias diferentes reforça a hierarquia em uma composição

Muito se fala sobre usar no máximo duas famílias de tipos em um projeto, mas isso não é uma regra universal. Dependendo do projeto e do resultado esperado, pode ser útil usar três ou quatro famílias distintas, seja para seções, destaques, notas de rodapé.

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Para terminar, reuni uma lista de links úteis para você continuar estudando:

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Este post tem 0 comentários

  1. Prezado Liute,

    Décadas atrás (ainda adolescente, lá pelos idos de 1973), recebia por meio de uns amigos muito queridos uma revista trimestral alemã em espanhol chamada “Artes Gráficas”, cuja coleção os cupins se encarregaram de eternizá-la. Nesse tempo eu era “aprendiz de revisor” em Corumbá (hoje MS, na época MT). O tempo passou, na universidade acabei fazendo História, embora ainda insistisse no Jornalismo, mas de modo secundário. No entanto, nunca abandonei minha paixão pelas fontes gráficas, programas gráficos (na época, do “Jornal da Tarde”, de São Paulo, e do “Jornal do Brasil”, do Rio, e do saudosíssimo “Jornal da República”, de São Paulo, do brilhante Mino Carta, fundador da “Veja” — em sua fase boa –, da “Istoé” — idem –. da “Senhor” e da CartaCapital, que nos honra com o jornalismo inteligente e instigante atualmente).

    Porém, além de querer receber comunicados das atualizações de sua genial página sobre artes gráficas, gostaria pedir-lhe, se achar que pode, seu correio eletrônico com alguns devaneios meus, bem como (aliás, sobretudo) algumas “aulas” (informações ou, melhor, artigo) sobre as fontes e famílias utilizadas na melhor fase da “Folha de S. Paulo” (entre 1975 e 1980), época em que o saudoso Jornalista Cláudio Abramo, ao lado de geniais figuras como Tarso de Castro, Nelson Merlin, Mylton Severiano da Silva, Plínio Marcos, Marta Alencar e Fortuna, criava cadernos inesquecíveis, como a (verdadeira) Folha Ilustrada e Folhetim. Não sei se o sistema aceitará, mas enviarei o link de uma edição dessa época para que observe as fontes usadas nos títulos (ou chamadas) da Folha Ilustrada e do Folhetim: .

    Por favor, envie-me uma mensagem de resposta, pois há anos ando procurando conhecer um pouco da história dessa fonte (na verdade, era a mesma usada no corpo do texto, mas sem negrito). Acredito que um artigo seu sobre essa fonte e sua família renderá muitas referências, dignas de seu currículo.

    Desde já, meus sinceros agradecimentos e um abraço fraternal.

    Até breve!

    Schabib (Ahmad Schabib Hany)

    1. Oi Schabi, tudo bem? Fico feliz em receber o seu contato! Não ví o seu link poderia postar aqui nos comentários?
      Você também pode entrar em contato através do email equipe@clubedodesign.com
      Um abraço!

      1. Bom dia, Liute!

        Obrigado pela resposta célere e precisa (coisa muito rara na Internet!).

        Estou enviando ao seu correio eletrônico o link do acervo da FSP com a edição de que trato no comentário postado. Não sei por quê, mas é recorrente (inclusive quando posto em meu arremedo de blogue) a não publicação de links.

        Abraços fraternais!

        Schabib

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