Tipografia básica #8 – Classificação dos tipos

No exercício do design tipográfico, um referencial teórico fundamental é o da história dos estilos das faces de tipo. Ao longo dos mais de quinhentos anos de existência da tipografia, o
número de estilos criados cresceu de tal maneira que exigiu dos historiadores desta área instrumentos de reconhecimento para as características formais das faces de tipo. A resposta tem sido
dada sob a forma de classificações. No entanto, esses referenciais têm se mostrado aquém da tarefa de identificar e descrever estilos, mesmo quando se trata somente da escrita latina.

A vasta gama de tipos disponíveis torna essencial a existência de algum sistema de classificação para, principalmente, simplificar as especificações de um trabalho. Tipos e famílias de tipos podem ser classificados de acordo com suas características intrínsecas. Para entender o sistema de classificação, e os meios pelos quais um tipo é classificado, devemos estar familiarizados com a terminologia utilizada para descrever estas características.

Muitas faces e grande parte da terminologia adotada para descrevê-las têm origem em projetos concebidos há 500 anos, e foram originalmente fundidas em metal ou gravadas em rocha. Mesmo agora, em nossa era digital, tais faces ainda apresentam as características inconfundíveis associadas às necessidades físicas de períodos nos quais foram criadas.

A classificação de tipos é um daqueles raros casos em que faz sentido julgar somente pela aparência, Por isso, é importante compreender como os tipos são classificados e quais são as diferenças entre suas variações, a fim de entender melhor quando usá-los em um projeto.

Classificando tipos ©Shutterstock
Classificando tipos ©Shutterstock

O primeiro ponto que chama a atenção com relação à classificação de faces é a multiplicidade de sistemas existentes. Essa pluralidade indica, no mínimo, uma insatisfação por parte da comunidade tipográfica com o que está instituído. É claro que a questão é complexa, o que conduz até hoje a soluções somente parciais. Não pretendemos enumerar as diversas classificações,  mas utilizarmos as mais comuns e que fazem parte do cotidiano de profissionais de criação e de impressão.

Uma parte apreciável das classificações que aparece nos livros e manuais de tipografia é baseada no trabalho do historiador tipográfico francês, Maximilien Vox2. Este pesquisador, em meados do século passado, estabeleceu nove categorias definidas a partir de características ligadas aos períodos históricos em que as faces foram criadas, bem como aos seus aspectos visuais (contraste das linhas, estresse e formato de serifa).

Porém, a progressão linear de Vox é incapaz de abranger a multiplicidade e complexidade das novas fontes. E isto se deve ao fato de essa estrutura estar vinculada a apenas dois fatores: ao desenvolvimento cronológico e às características visuais. A saída seria constituir um sistema que possa incluir outros fatores, como o tecnológico, o funcional, o cultural e o geográfico. Porém, infelizmente, mesmo que tal sistema se constitua, provavelmente será de enorme complexidade, e consequentemente pouco prático.

Uma classificação mais recente, de 1992, é a do poeta, tipógrafo e designer de livros Robert Bringhurst (2005, p. 133-152). Essa classificação também se mantém associada aos períodos históricos, mas ao mesmo tempo está atrelada ao mundo das artes. Bringhurst simplesmente faz uso das clássicas divisões utilizadas em manuais de história da arte, para agrupar as faces de tipo. E são dois os seus argumentos para essa apropriação. Em primeiro, as letras são objeto da ciência, mas também da arte. Portanto, participam da cultura e das mudanças que ocorrem nas suas mais diversas formas de manifestação. Daí podermos aplicar à tipografia os mesmos termos que utilizamos em história da arte (tal como o estilo renascentista, o rococó, o barroco e todos os demais) e que estão associados a períodos históricos. Em segundo, como a tipografia não ocorre isoladamente, é necessário, para a conhecermos, compreendermos sua relação com o universo da cultura humana.

Para a construção dos artigos desta série, vamos utilizar a classificação baseada em características anatômicas, precisamente as citadas no livro Tipografia, de Gavin Ambrose e Paul Harris, dividas em quatro categorias básicas: góticas, romanas, grotescas e escriturais. Além disso, outra categoria, gráficos (ou experimentais, ou símbolos), acolhe os tipos que não se encaixam naturalmente em qualquer uma das quatro categorias básicas.

As quatro categorias iniciais podem ainda ser subdivididas:

  • Góticas ou (ou blackletter) abrange as faces baseadas na escrita de mão praticada na Alemanha;
  • Romanas abriga todos os tipos serifados;
  • Grotescas contém os tipos sem serifa;
  • Escriturais engloba faces que imitam a escrita de mão.

Para um melhor entendimento destes conceitos, é importante ler o artigo Anatomia dos tipos.

Góticas

Gótica - Old English
Gótica – Old English

Faces góticas, quebradas (broken), ou de forma (block), também conhecidas em inglês como blackletter, black ou old english, baseiam-se no estilo de escrita ornamentada dominante durante a Idade Média. Hoje, elas dão a impressão de ser pesadas e difíceis de ler em grandes blocos de texto, e parecem antiquadas.

OS elementos deste grupo são extremamente fáceis de identificar. São tipos baseados na escrita do século XII, predominante na Europa, na região a norte dos Alpes qual hoje chamamos Alemanha. Este foi aliás o estilo usado por Gutenberg, quando inventou a Imprensa há 500 anos atrás e compôs a famosa Bíblia de 42 linhas, simulando o tipo de letra usado pelos copistas da época.

Os Tipos Góticos são caracterizados pelo seu aspecto condensado e angular, onde a ausência de curvas é quase uma constante, e pelas curtas ascendentes e descendentes. Estas qualidades eram muito importantes, pois permitiam colocar um maior número de letras em cada página, economizando assim precioso pergaminho, o suporte de escrita mais utilizado nos documentos daquela altura.

No entanto, isto faz com que estes tipos tenham uma legibilidade reduzida e já não sejam uma boa solução para utilizar em grandes quantidades de texto, pois as letras minúsculas são muito
semelhantes entre si. A letra n, por exemplo, é facilmente confundida com as letras i, m ou u, transformando a palavra mínimo numa dor de cabeça.

08-tipos-goticos_jornais

Esta foi aliás a razão pela qual o ponto por cima da letra i foi implementado. Os Tipos Góticos são uma boa opção para títulos, cabeçalhos e capitulares (muito usado em diários e livros), ou para fazer a página transmitir a sensação de um documento antigo. Por ter sido bastante usado em textos religiosos, este estilo encontra-se também muito associado à igreja.

Da mesma forma que nos tipos escriturais, os góticos não devem ser compostos exclusivamente em caixa-alta (letras maiúsculas), pois tornam as palavras ilegíveis. Também deve-se evitar o aumento de espaço entre as letras porque, devido sua estrutura, os caracteres góticos precisam estar juntos. De fato, a legibilidade não era o objectivo principal dos copistas medievais. Este estilo de escrita antigo permitia-lhes, isso sim, criar uma textura que fazia com que as páginas parecessem ter sido tecidas, e desta forma, o que se perdia em clareza, era ganho em beleza. – Guia de tipos

Romanas

Romana - Book Antiqua
Romana – Book Antiqua

O tipo romando tem letras e serifas proporcionalmente espaçadas, e foi originalmente derivado de inscrições romanas. É o tipo mais legível, comumente usado para textos longos. Quem não lembra da fonte padrão nos editores de texto do Windows até pouco tempo atrás, Times New Roman? Uma fonte de categoria romana que se tornou padrão para muitos em documentos acadêmicos e legais.

Formado por fontes que mostram influências da escrita, especificamente a caligrafia humanista do século XV, e também da tradição de lapidação romana, onde os pés das letras eram esculpidas para evitar que rolassem.

As fontes romanas são regulares, têm harmonia de proporções, apresentam um forte contraste entre os elementos retos e curvos e suas serifas garantem um alto grau de legibilidade.

Os tipos romanos se dividem ainda em cinco grupos principais:

Antigo: Foram desenvolvidas nos séculos XVI e XVII para substituir os tipos góticos como padrão de letra utilizado. Elas se distinguem por sua irregularidade e pelas serifas ascendentes inclinadas, e têm baixo constraste entre traços grossos e finos. Também possuem serifas apoiadas em estresse inclinado à esquerda.

Adobe Garamond
Adobe Garamond

Transicionais: Têm contraste moderado entre traços grossos e finos e estresse com menor inclinação à esquerda. Uma característica distintiva dos tipos de transição é a ponta plena ou triangular onde os traços diagonais se encontram, como pode ser visto no W.

Constantia
Constantia

Modernas: Foram desenvolvidas no final do século XVII e são reconhecidas pelo alto contraste entre os traços finos e grossos de cada glifo, bem como pelas serifas planas, não apoiadas e quase sempre muito finas.

Bodoni
Bodoni

Serifas Quadradas: Distinguem-se por suas serifas espessas, que eram consideradas mais pesadas do que as de suas antecessoras. Serifas quadradas podem ser divididas entre os estilos claredon e máquina de escrever.

Claredon: Possui apoios mais sutis
Claredon: Possui apoios mais sutis
Courrier New / Máquina de escrever: Serifas de espessura igual à das hastes dos caracteres
Courrier New / Máquina de escrever: Serifas de espessura igual à das hastes dos caracteres

Grotescas

Grotesca - Arial
Grotesca – Arial

Tipos grotescos, sem serifa, lineais ou bastão, também conhecidos em inglês como gothic, não têm os detalhes decorativos que caracterizam os tipos romanos. Seu design limpo e simples os torna ideais para títulos, mas pode dificultar a leitura em textos longos. Outro excelente exemplo de fonte grotesca é a vasta família de tipos Helvética.

Assim como as romanas, os tipos grotescos possuem subgrupos, são eles os grotescos, neogrotescos, geométricos, humanistas, quadrados e arredondados.

Grotescos: Têm formas mais condensadas do que as das neogrotescas, apresentam o g com dois andares e o G com queixo.

NewsGoth
NewsGoth

Neogrotescas: Têm formas mais amplas do que as das grotescas, apresentam o g com cauda e o G com queixo.

Helvética
Helvética

Geométricas: Têm formas muito arredondadas e são distinguíveis pelos seus M, N, V e W abertos. A perna do R junta-se ao bojo perto da haste, e o G não tem queixo.

Futura MD BT
Futura MD BT

Humanísticas: São semelhantes às geométricas, pois também possuem M, N. V e W abertos, o G sem queixo e o R com a perna que encontra o bojo perto do tronco. No entanto, elas têm contraste maior nos pesos dos traços e o g com dois andares.

Humanst521 BT
Humanst521 BT

Quadradas: Têm caracteres com perfil quadrado em vez de arredondado. O g tem cauda e a cauda do q atravessa o bojo. O G não tem queixo.

Square 721 BT
Square 721 BT

Arredondadas: Possuem extremidades arredondadas que resultam em letras com um ar um pouco mais relaxado e visualmente atraente.

Arial Rounded
Arial Rounded

Escriturais

Escritural - Kunstler Script
Escritural – Kunstler Script

Faces escriturais são projetadas para imitar a letra de mão, de modo que, quando impressos, os caracteres pareçam estar unidos. Assim como na escrita manual humana, algumas variações são mais fáceis de ler do que outras.

Abaixo algumas referências interessantes para você continuar estudando:

Compartilhe este artigo:

Deixe uma resposta

Mais artigos pra você ler:
Affinity Photo #11 - Usar Sobreposições

Affinity Photo #11 - Usar Sobreposições

As ferramentas Sobreposição podem ser usadas juntamente com o painel Sobreposições para que você possa aplicar ajustes padrão em áreas…
Dinâmica de alinhamento do Photoshop

Dinâmica de alinhamento do Photoshop

Neste vídeo eu vou te explicar como funciona a dinâmica de alinhamento de camadas do Photoshop. CONHEÇA MEU CURSO DE…
Banner com efeito Visa no CorelDRAW

Banner com efeito Visa no CorelDRAW

Neste vídeo eu vou te ensinar como criar um banner usando o CorelDRAW. Nele vamos reproduzir um efeito usado na…
Frente e verso no Photoshop

Frente e verso no Photoshop

Neste vídeo você vai aprender como criar e organizar seus arquivos no Photoshop para impressão frente e verso. PRE-VENDA DO…
Fechar Menu