Produção Gráfica #10 – Matriz e seus elementos

No primeiro artigo da série Produção Gráfica aprendemos sobre o seu conceito e estudamos um pouco sobre impressão. A partir daí fomos introduzidos a termos pouco comuns na carreira de um designer e que estão mais presentes na de um arte-finalista ou impressor. Um destes conceitos foi o de Matriz, utilizado para explicar o conceito de impressão.

A primeira coisa que você deve aprender antes de começarmos é o que significa impressão. Tratasse do processo de transferência de pigmentos (ou tintas) de uma matriz para um suporte visando obtenção de cópias. Os pigmentos podem estar disponíveis em diversas formas, como líquidos, pastas, pó, gelatinosos, etc. Quando falamos em suporte, estamos especificando a superfície ou material que receberá o pigmento, como o papel, plástico, metal, madeira, tecido, e onde mais você puder imprimir. – Produção Gráfica #1.

Todo o processo de reprodução pressupõe que precisaremos de várias cópias de um mesmo original. Daí destacamos o termo matriz, ou seja, o original de onde serão reproduzidas as demais cópias. As matrizes podem ser físicas ou virtuais, dependendo do processo de impressão utilizado.

As matrizes físicas são usadas nos processos mecânicos, como as impressões offset, flexográficas, serigráficas etc. Já as matrizes virtuais são utilizadas nas impressões digitais e em alguns modelos de impressão mecânico-virtual (híbrido), com acontece com os duplicadores com scanner e nos processos Computer to Press (computador para impressora).

Além disso, as matrizes físicas estão diretamente relacionadas com o material do qual são feitas ou com o seu aspecto físico: chapas (offset), cilindro ou forma (rotogravura), tela (serigrafia), borracha (flexografia), rama e clichê (tipografia).

Como parte do processo de impressão e visando agilizar a produção das cópias gerando também economia, as matrizes geralmente suportam mais de uma unidade do serviço a ser executado. Isso quer dizer que as matrizes são maiores do que o original.

Você não coloca, por exemplo, em uma chapa offset apenas uma imagem de um panfleto, mas repete a imagem várias vezes distribuindo-as na chapa, dependendo do seu tamanho e do tamanho do papel que será usado. Desta forma imprime-se mais de uma lâmina ou página de um mesmo serviço.

As maiores exceções a isso são os processo digitais de determinados equipamentos de serigrafia, nos quais cada cópia é impressa separadamente, já que a matriz e o papel utilizados são mais ou menos do mesmo tamanho do produto final devido às restrições da tecnologia envolvida.

Os elementos da matriz

Como uma matriz pode suportar mais de uma lâmina ou página de um mesmo serviço, ela possui alguns elementos que facilitam a operação durante a impressão e no processo de acabamento, visando a qualidade do produto final.

Como saber onde começam ou terminam as páginas? Onde será efetuado o corte ou dobras? Para isto é preciso indicações na matriz que serão impressas junto com o serviço original. Você com certeza já deve ter ouvido falar sobre as marcas de corte, marcas de registro, etc.

Isso também implica em vários conceitos e termos envolvidos no processo de impressão. Esses elementos, termos e conceitos estão listados abaixo e serão usados ao longo desta série de posts. Como já mencionei, vamos usar a impressão offset com referência, sendo que boa parte destes termos também são utilizados em outros modelos de impressão.

Formato de fábrica

É a folha de papel tal como é adquirida dos fabricantes e distribuidores. Os padrões utilizados pelo setor gráfico são diferentes dos comerciais que encontramos nas papelarias. Geralmente são bem grandes e tem uma de suas dimensões medindo cerca de um metro.

Formato de entrada em máquina

Nem sempre a boca da máquina é dimensionada para o formato de fábrica. Existem máquinas que imprimem em diferentes tamanhos de papel, como as de porte pequeno, comum em gráficas pequenas e médias e em equipamentos de serigrafia, onde as folhas sofrem um pré-corte. O formato de entrada é o obtivo após este pré-corte.

Na gráfica onde trabalhei tínhamos máquinas para dois tamanhos de entrada, uma Solna com entrada para o formato 2 (48x66cm) e uma Heidelberg GTO com entrada para formato 4 (33x48cm). Veja uma tabela para conhecer os formatos mais comuns de papel.

Margens laterais da folha

É o primeiro elemento que deve ser considerado na matriz e, portanto, no aproveitamento de papel para a impressão. Todo processo de impressão que se utiliza de cilindros necessita de áreas laterais do papel para fazer com que ele corra por seus mecanismos.

Além disso, o armazenamento, o transporte e o manuseio do papel podem comprometer as bordas das folhas e mesmo das bobinas de papel. Por uma razão ou outra, há o risco dessas áreas ficarem amassadas ou manchadas, e por isso elas devem ser desprezadas. Cada máquina exige uma margem mínima determinada.

Margem da pinça

Um termo muito utilizado no meio dos arte-finalistas, impressores e bureus de pré-impressão, elemento exigido por vários modelos de impressoras, especialmente aquelas que não trabalham em alta velocidade: a alimentação do papel é feita por um equipamento – a pinça – que puxa as folhas dentro da máquina.

No vídeo abaixo você consegue observar uma impressora offset em funcionamento, pelo que pude perceber é um equipamento bem parecido com o que tínhamos na gráfica onde trabalhava, uma Heidelberg GTO (não sei o modelo especificamente).

Neste modelo não dá pra ver a pinça no momento em que ela pega o papel (no começo do vídeo, o papel é sugado pelas cabeças de sucção e posicionado na entrada da máquina), mas se você avançar exatamente para o minuto 1:09 verá o momento em que a pinça “larga” o papel na bandeja final. Esta pinça por si só ocupa uma margem do papel que não pode ser aproveitada na impressão. Daí o termo “margem de pinça”.

A pinça com muita frequência amassa, marca, suja ou até mesmo rasga o papel, por isso é preciso desprezar a área da folha onde ela atua. Sendo assim, além das três margens laterais da folha, é preciso deixar uma margem maior, a margem da pinça, no lado da folha que entrará primeiro na boca da máquina e que será puxado pela pinça.

Vamos ver mais detalhes sobre a pinça quando falarmos sobre papel, em um artigo futuro.

Marcas de impressão

Se você trabalha com design e projeto gráfico é bem provável que já conheça as marcas de impressão. São elementos que precisam constar na matriz e são impressos na folha para auxiliar a impressão e o acabamento, como as marcas de corte, marcas de dobra e as marcas de registro.

As marcas de corte são indicadas por traços uniformes com pelo menos 3mm de comprimento e que indicam onde o impresso deve ser cortado para ficar com as suas dimensões finais.

As marcas de dobra são bem parecidas com as de corte, porém são tracejadas e servem para indicar onde o material será dobrado.

Já as marcas de registro servem para auxiliar o impressor no alinhamento das chapas para que a impressão de cada uma das cores CMYK esteja na posição correta gerando a imagem final sem “fantasmas” ou deslocamento das cores.

Barra de controle (ou tira de controle, ou tira de cor, ou escalas de densidade, ou escalas de densitômetro)

Outro elemento gráfico que deve fazer parte da matriz e que é impresso na folha de entrada em máquina. Trata-se de uma estreita impressão padronizada que será descartada quando da finalização do impresso, mas que é fundamental para que o gráfico possa avaliar a qualidade do trabalho durante o andamento da impressão (quantidade de tinta, intensidade da umidade no caso o processo offset, registro, etc).

Área de impressão

É a área útil do papel, ou seja, a área na qual pode-se efetivamente imprimir. Em muitos casos é conhecida como “área de mancha de impressão” ou apenas como “mancha de impressão”. Do formato de entrada em máquina, subtraem-se as margens laterais, a margem da pinça e a área a ser ocupada pelas barras de controle. Chega-se então à área de impressão.

Falei sobre isso no vídeo (já mencionado alí em cima) sobre aproveitamento de papel.

Sangramento (ou sangria)

A sangria já foi abordada em diversas oportunidades aqui no Clube. Como neste post da série Diário de um Arte-finalista, ou neste vídeo recente do Canal.

Um elemento sangrado é aquele que ultrapassa a área do tamanho final do impresso e que por isso é cortado no acabamento. Muito utilizada em impressos com fundos coloridos ou com imagens que ocupam toda a página. É através do uso de sangria que cria-se o efeito de impressão “sem margem” em um impresso finalizado.

A sangria evita que bordas brancas se formem ao redor de materiais totalmente coloridos devido a imprecisão do corte. O excesso de impressão que deve ultrapassar em pelo menos 3mm as marcas de corte, são cortados quando o projeto é finalizado.

quando o impressão não possui elementos sangrados, dizemos que ele receberá um corte seco. Esta expressão se deve ao fato de que, como as páginas ou lâminas estão posicionadas no limite umas das outras (e não separadas pelo sangramento), bastará um único e certeiro corte na guilhotina de papel para que o refile esteja concluído.

  1. Marca de corte: A marca de corte indica onde o trabalho deve ser refilado. É representada por um fio contínuo, na cor de registro e com espessura de 0.3pt a 0.5pt.
  2. Marca de dobra / vinco: A marca de dobra ou vinco indica onde o trabalho deve ser dobrado. É representada por um fio intermitente, ou seja, tracejado, na cor de registro e com espessura de 0.3pt a 0.5pt.
  3. Barras de Calibração: As barras de calibração servem para o impressor analisar a quantidade de tinta e ajuste de carga. Podem variar de 5 em 5%, 10 em 10%, 25 em 25%, isso fica a critério de gráfica.
  4. Marcas de Registro: Marca de registro, ou cruz de registro, é um desenho em cruz na cor de registro que indica se as cores estão “casando” perfeitamente. Quando observado ao conta-fios deve-se perceber apenas um fio, sem deslocamento das cores.
  5. Identificação das Cores: Identifica a cor a ser impressa. Se houver cores pantones no trabalho, ou verniz, deve ser identificado separadamente.
  6. Sangria: Área que extrapola a dimensão final do job. Recurso que previne contra filetes brancos durante o refile.
  7. Área do trabalho: Tamanho final do trabalho. Não confundir com “área de mancha” — que é a área máxima de impressão no papel. Se o trabalho for um A4 então a área será de 297 x 210mm.
  8. Margem de Segurança: Margem interna que também previne contra variações do refile. Se a máquina de corte variar pode-se acabar cortanto um texto importante (endereços, e-mails, telefones, etc). Para prevenir, guarda-se 5mm a partir da linha de corte em direção interna do job.

Caderno

Cada folha de papel que entra na máquina comporta mais de uma lâmina ou página do serviço que estamos rodando. Quando se trata de um material paginado (revistas, livros, jornais, etc) cada uma das folhas impressas é dobrada de acordo com o número e o formato das páginas que contém e então três de seus lados são refilados (separados no acabamento) para que as páginas possam ser abertas.

A esse resultado damos o nome de caderno,  onde cada uma das folhas forma um caderno.

Assim, uma folha onde são impressas oito páginas em cada face se transforma num caderno de 16 páginas.

O que você conhece como encadernação aqui é a reunião de vários cadernos que formam o total de páginas da publicação.

Seguindo ainda o exemplo anterior, um livro de 160 páginas seria formado por dez cadernos de 16 páginas. Isso quer dizer que cada exemplar foi feito com dez folhas de entrada em máquina, que depois de impressas foram dobradas, unidas pela encadernação e refiladas.

A partir daí já podemos falar de outro conceito importante, a imposição de páginas.

Imposição de páginas

Em alguns artigos aqui do Clube você pode ver como a imposição de páginas é fundamental para a impressão de livros, cadernos, revistas, jornais, etc. Falei sobre aplicativos de imposição neste post, e até mostrei como fazer a imposição usando o CorelDRAW e o InDesign neste vídeo.

Essa etapa é realizada quando na montagem da matriz é preciso organizar os fotolitos das páginas na matriz de forma que, após a dobra, elas tenham a sequência correta de acordo com a sua numeração.

Esse processo geralmente é feito pela gráfica ou bureu que gera os fotolitos, mas na maioria das pequenas gráficas eles acabam passando a bola para o designer ou para o cliente. Se a sua gráfica não sabe imposicionar ou pede que você faça isso por ela, troque de fornecedor imediatamente.

Quando a chapa é gravada digitalmente (CtP e CtPress) o processo é feito eletronicamente (a maioria hoje em dia), algo muito parecido com o que você vê nas ferramentas de imposição do CorelDRAW. Os softwares mais utilizados para isso são o Preps ou Imposit, como você pôde ver no artigo mencionado à pouco.

Formato aberto / fechado

Por experiencia própria, um dos termos que mais causam problemas e confusão nos clientes na hora de pedir orçamento à gráfica.

Quando uma revista é impressa, ela não é rodada dobrada, as suas páginas são impressas abertas e só depois, no acabamento, ela é devidamente dobrada e grampeada. Essa diferença pode ser ainda pior se for um livro com lombada e orelha.

Explicando de um jeito bem simples e ainda usando uma revista como exemplo, o formato aberto é o formato total de uma página impressa, sem dobra. E formato fechado é o formato final de impresso, depois de pronto e devidamente dobrado.

Uma revista que tem 15cm de largura tem 30cm de largura no formato aberto. Os 15cm correspondem à largura de seu formato fechado (que será o seu formato final).

A definição de formato aberto e formato fechado é fundamental para a produção de qualquer impressão que inclua dobra, pois a montagem da chapa é feita a partir do formato aberto, ao passo que o acabamento só é possível sabendo-se o formato fechado.

Enquanto eu navegava à procura de referências para este post encontrei o vídeo abaixo, que mostra o processo gráfico em um agráfica de pequeno porte. Acredito que seja interessante para você entender como as coisas funcionam, mesmo que de forma bem superficial.

Espero que você tenha gostado do post, não deixe de acompanhar todos os artigos da série Produção Gráfica. Até o próximo post.

Com informações coletadas do livro: Produção Gráfica para Designers, de André Villas-Boas.

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Este post tem 2 comentários

  1. Muito bom esse artigo, elucidou muita coisa e mostrar o processo de impressão numa off-set foi muito massa, volto a falar de novo dessa questão espero anciosamente por um artigo voltado para impressão de menor porte, usando off-set de portateis impressoras mais rapidas como a linha X da HP. Excelente como todos os artigos aqui do CLube.

    1. Muito obrigado Freela! 😀 É muito importante saber que a série está sendo útil. Eu particularmente adoro escrever sobre o assunto e é algo que pretendo me aprofundar ainda mais.
      Um abraço!

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